Para tentar justificar a “baixada de bola” na exposição das personagens gays de suas novelas, a TV Globo divulgou nota em que diz que a “ciência (…) reconhece que a sexualidade, com suas variantes éticas e morais, é baseada na singularidade”. No entanto, diz a emissora, apesar de suas tramas registrarem “a afetividade e o preconceito”, não cabe a “exaltação”. Oficializou-se aí a determinação a seus autores de que “baixem a bola” LGBT na telinha.
Do ponto de vista do enredo, a “trama” gay de “Insensato Coração” – em sua demonstração da tomada de consciência da orientação afetiva-sexual e denúncia da violência por preconceito – é forçada, não inspira verossimilhança, peca em diálogos clichês e, em vários momentos, veem-se falas sem naturalidade. Mas, daí, utilizar o “exaltação” para se referir à representação de uma variante social – e/ou sexual – é no mínimo estranha – belo convite, aliás, ao autor da ordem lá na emissora a uma revisão sobre as próprias motivações.
“Exaltação”, diz o dicionário Housaiss, é ato de glorificar, um arrebatamento, uma sobreexcitação. Dar-lhes-ei alguns dados: o Brasil é o país em que, não sendo proibida a homossexualidade, mais se mata LGBT: denunciar a violência por preconceito não é a “exaltação” do gay; a maioria dos que já sofreram agressão psicológica, moral e/ou física foram vítimas de familiares (pai, mãe, irmão, tio): mostrar, via novela, de onde vem a maioria das agressões não é “exaltação” do gay; 70% das pessoas ouvidas pela Fundação Perseu Abramo acreditam que violência contra LGBT não é problema delas, mas dos próprios gays: recentemente, pai e filho – héteros – foram confundidos e apanharam por estar abraçados, o que demonstra a necessidade, sim, de todos os meis – a novela incluída – trabalharem no esclarecimento de que violência por preconceito é problema de todos – e uma grande bobagem.
Erra a TV Globo em querer “baixar a bola” dos gays nas novelas sob argumento de que representá-los sem estereótipos é “exaltação”. Fosse pela trama, concordaria. Maria Adelaide Amaral demonstrou como faz-se novela com sensibilidade, competência e respeito, representando gente, incluindo as diversas manifestações sociais e sexuais.
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