Para que Deus você ora: o da violência ou do amor?

Vem da Argentina a notícia de que conservadores estão se mobilizando para derrubar a Lei do Casamento Igualitário. O motivo: religioso. Argumentam que casamento é entre homem e mulher e que, pelo bem da família, não pode ser diferente.

Jean Wyllys (PSOL/RJ) discursa no Congresso, apresentando como será seu mandato

Uma das mobilizações no Facebook pede o fim da lei para que não seja “destruída a sociedade argentina”. Clama pela união de todos “por uma Argentina diferente” e prega que “com Jesus é possível”. Lê-se também frases como “Nossa nação perdeu os valores” e “Por uma Argentina que Deus quer”.

Nada diferente do Brasil, onde congressistas se mobilizam contra projetos de leis que tratam da igualdade de direitos entre héteros e LGBTs e criminalizam atos discriminatórios ou que reforcem o preconceito. Mesmo os que dizem ter boa vontade contra a homofobia confundem casamento religioso com casamento civil. Todos ligados à Igreja Católica e evangélicas.

De onde se prega amor, respeito, igualdade – ensinamentos de Jesus? – é que brotam palavras de ódio, intolerância e se faz apologia à desigualdade. Alguns tentam levar às últimas consequências, inclusive, com ameaça de morte.

Único congressista assumidamente homossexual, Jean Wyllys (P-SOL/RJ) recebeu mensagens via Twitter do tipo: “é por ofender a bondade de Deus que você deve morrer”. Outra dizia para ele ter “cuidado ao sair de casa, você pode não voltar” e “a morte chega, você não tarda por esperar”.

“Não posso minimizar a responsabilidade dos pastores evangélicos nisso, porque eles conduzem as pessoas demonizando minorias”, diz Wyllys. Na mesma linha, há algum tempo, o padre Fábio de Melo disse que a intolerância religiosa não é o caminho. Numa entrevista ao Faustão (TV Globo), Melo alertou para o risco de se “justificar e abençoar” as violências contra LGBTs sob o argumento de que pregam contra o “pecado”. “Isto sim é pecado”, disse.

No entanto, pondera Wyllys no Twitter, “o cristianismo de verdade não se opõe a defesa da dignidade humana nem incita seus seguidores à violência nem a ofensa”. Jean Wyllys, logo após tomar posse na Câmara, teve retirado do ar o perfil no Facebook, ato, segundo ele, cometido “pelos inimigos da democracia”.

Inauguração de mais um templo da Igreja Cristã Contemporânea, 19/3, em Madureira

“Meu trabalho tem incomodado uma gente que sempre enriqueceu à custa da violação dos direitos de LGBT”, escreveu, lembrando que tem ao lado dele a Diversidade Católica, as Católicas pelo Direito a Decidir e as igrejas evangélicas inclusivas.

Uma delas a Igreja Cristã Contemporânea, sobre a qual, já escrevi aqui. No último sábado, 19, mais um templo – o de Madureira – foi inaugurado. Estava lotado. A partir de agora, serão cinco igrejas – Lapa, Madureira, Campo Grande, Nova Iguaçu, Belo Horizonte (MG). Outras igrejas serão abertas pelos próximos meses em Duque de Caxias – o local já foi escolhido, segundo apurou este blog –, São Gonçalo e Petrópolis. Uma parte considerável dos membros vem de outras igrejas, onde não era aceita.

Ao fundo, pastor Fábio Inácio ministrando louvor

Ao fundo, pastor Fábio Inácio ministrando louvor

Para os fundadores da Contemporânea, pastores Marcos Gladstone e Fábio Inácio, o amor de Deus não é seletivo, “não aceita uns e exclui outros”, diz Gladstone. “Deus não faz acepção de pessoas. Ele nos dá e ensina o amor verdadeiro e puro, não aquele que agride, deseja mal e pratica violência – seja física ou psicológica”, concorda Inácio.

Ambos lembram que a Contemporânea não é apenas para gays – “seria acolher uns e excluir outros”. “A igreja é um espaço para todos que querem ter um lugar para se relacionar com Deus e saber, de verdade, que Ele nos ama exatamente como fomos formados: homens, mulheres, brancos, negros, baixos, altos, héteros, homo”, concluem.

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Filho deve ser acerto em sua totalidade

O filho deve ser aceito na sua totalidade, por Toninho Cerezo

Por Toninho Cerezo, para REVISTA LOLA

Na seleção brasileira durante a Copa da Espanha, em 1982

A paternidade é livre de qualquer padrão, de qualquer critério imposto pela sociedade. Filho deve ser aceito na sua totalidade, na sua integral condição de vida, independente da sua orientação sexual [...]

Apesar de notar as diferenças, percebi também que nada poderia fazer, e tudo o que poderia dar a ela/ele era o meu amor incondicional [...]

Você, Lea T. Cerezo, sabe muito mais que embaixadinhas. Teve coragem de, elegantemente, tentar quebrar paradigmas e mostrar ao mundo que devemos aceitar as diferenças [...] Menino ou menina, Leandro ou Lea, não importa mais, sempre serei seu pai e você, orgulhosamente, um pedaço de mim.

NOTA: Toninho Cerezo é pai de uma das top model do momento Lea T. – uma transexual. Cerezo jogou pela seleção brasileira na Copa da Espanha, em 1982.

De Jô Lessa, para REVISTA ÉPOCA

Aos 12 anos, em pleno alto verão do Rio de Janeiro, ia de calça comprida e blusa de manga comprida para a escola. Queria esconder as cicatrizes deixadas pela surra da minha mãe.

“Sapatão!”, gritava.A funcionária pública Jô Lessa, aos 43 anos: uma história de superação

Apanha por ser gay, sem ainda entender o significado da palavra.

Cheguei a ser internada num hospício, de onde consegui fugir.

A mãe me encontrou e me acusou de delinquente. Resultado: uma temporada de detenção. Vi coisas lá que não desejo a ninguém.

Aos 16 anos, fui estuprada por uma homem que dizia que iria me dar um jeito. Engravidei. Hoje, meu filho está com 25 anos.

Morei por um ano na rua.

Hoje, aos 43, sou funcionária pública e minha história é de superação.

Encontrei paz na Igreja Cristã Contemporânea , congregação evangélica que aceita homossexuais.

Usei cada pedra atirada contra mim para construir meu castelo.

NOTA: tire as suas conclusões.

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12 de junho (Dia dos Namorados), 8h30. Manhã fria no Rio de Janeiro. Fila indiana e em pares, aos poucos as pessoas preenchem o ônibus. Sorrisos, falas animadas, ansiedade. “Alegria” é a melhor palavra para descrever a atmosfera. Da Lapa, bairro da cidade do Rio de Janeiro, mulheres e homens partiram para o Sítio Renascer, na cidade de Magé (Baixada Fluminense, RJ), local do Encontro de Casais.

Reunião de casais gays, da Igreja Cristã Contemporânea

No ônibus, as poltronas, duas a duas, iam sendo ocupadas pelos evangélicos. Dois homens, duas mulheres; dois homens, duas mulheres; dois homens, duas mulheres. Para ser exato: 43 companheiros – uns casados, outros noivos, alguns namorando. Todos “num relacionamento de amor e fidelidade, dedicando o Dia dos Namorados ao amor e a Deus”. Era o primeiro encontro de casais da Igreja Cristã Contemporânea. “Estou ansioso! É muito bom me sentir como um casal normal!”, dizia o obreiro Levi, maestro do coro Lovarte.

O frio ajudou a dar charme ao encontro, que começou com a apresentação dos casais – um deles, com 19 anos de união. “Sempre em dois”, as pessoas iam se apresentando. “Eu sou o Marcos Aurélio, do Wallace; e eu o Wallace, do Marcos Aurélio. Temos um ano e meio”, começou um. E assim foi até que todos estivessem apresentados.

Família foi tema da primeira ministração, de responsabilidade da evangelista Anne. “Temos de dar valor àquele que está ao nosso lado, que nos aguenta enquanto estamos doentes, com TPM, que cuida de nós”, ensinava ela, que é casada há sete anos com outra evangelista. “E o Espírito Santo tem de ser a terceira dobra, para que sejamos abençoados”.

Todos tomaram café da manhã e almoçaram, no sítio. O trabalho de organização ficou a cargo de um grupo de jovens solteiros (“ainda!”, diziam). Teve ainda “lembrancinhas” com a foto e o nome do casal. Mas as mensagens e as surpresas foram o que mais agradaram. “Poderia ter todos os meses”, pediu um dos presentes, que é de outra igreja, inclusive.

Aliás, as surpresas levaram os mais sensíveis às lágrimas. “Fico emocionado com o amor”, disse um rapaz, acompanhado do namorado. “Sempre sonhei em ter ao meu lado alguém que me completasse sentimental e emocionalmente, mas não acreditava ser possível. Hoje eu vejo que é”, completou.

Houve dois pedidos de casamento. E mais lágrimas. Emoção e frio temperaram a tarde de 12 de junho, que não será esquecida por muitos. “Está marcado”, “não vou esquecer”, “que dia abençoado!”, era o que mais se ouvia após o encontro.

Os pastores-fundadores da Igreja Contemporânea, Marcos Gladstone e Fábio Inácio, se emocionaram também. “Agradeço a Deus, pastor, pela sua vida. Que Deus abençoe a sua mãe por tê-lo posto no mundo”, dizia um dos membros. “Devo o que sou a Deus e a este ministério”. Gladstone – redundância dizer – foi às lágrimas.

O amor deu o tom inicial e final ao encontro. O capítulo 13 da carta do apóstolo Paulo à igreja de Corinto serviu de base para o aconselhamento dos pastores, que pontuaram uma a uma as características do amor. “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha”.

Casais. Amor. Igreja Cristã Contemporânea. A relação é explicada pelo pastor Marcos Gladstone, segundo quem “quando Deus revelou esse ministério, deixou claro que os casais são os pilares da Igreja Contemporânea, daí a importância de um encontro como esse”.

Pode ser clichê, caro(a) leitor(a), mas só dá para encerrar esse texto com dizendo que amor não é gay, nem hétero. É simplesmente amor, que – tenho certeza – é dom de Deus dado aos homens. O resto é só rótulo.

Bravos guerreiros

Ocorreu na última quarta-feira (27) a abertura oficial da V Conferência Ilga-Lac (Associação Internacional de Gays e Lésbicas da América Latina e do Caribe) em Curitiba (PR). Apesar da pressão de congressistas da bancada religiosa, o evento, que irá até sábado (30), contou com a participação de Mariângela Simão, da coordenação do Plano Nacional de Combate ao HIV/Aids; do deputado federal José Genoíno (PT-SP); e do ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi. O objetivo da conferência é debater e traçar estratégias de luta pelos direitos LGBT na América Latina. Houve momentos de emoçã o, na abertura. Um deles, quando o presidente da ABGLT, Toni Reis, pediu que aplaudissem de pé os ativistas da Guiana, Trinidad e Jamaica, países em que “ser homossexual é crime”, e conclamou: “Nós temos que acabar com isso”. Reis os chamou de “bravos guerreiros”.

Jornalistas e ativistas que acompanharam a abertura apontaram o discurso do ministro de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, como o mais forte da noite. Vannuchi defendeu a união civil gay e a adoção de crianças por famílias homoafetivas e disse que toda a polêmica em torno do PNDH 3 (Programa Nacional de Direitos Humanos) mostra o quanto a “luta de vocês [LGBT] e outras são fundamentais para o avanço da sociedade”. E até considerou positiva as manifestações contrárias aos direitos dos homossexuais. “É difícil solucionar os problemas quando eles não vêm à luz, ficam cobertos pelo manto da hipocrisia”, concluiu.

Intolerância religiosa
Em entrevista à revista “A Capa”, o ministro usou a bíblia para dizer que apesar da bancada religiosa fazer grande pressão contra os direitos gays, “sempre haverá o joio e o trigo”, daí a importância dos evangélicos e católicos numa democracia. Vannuchi defendeu o diálogo, já que os congressistas que usam a religião como argumento, estão absolutamente convencidos sobre aquele ponto de vista.

“A sexualidade envolve um terreno de tabus humanos e as pessoas têm enorme dificuldade de pensar nisso. Então nesse sentido eu compreendo as atitudes intolerantes, mas não concordo com elas. Vejo que há caminho para levar adiante o diálogo de convencimento”, disse o ministro.

Ainda na Conferência, George Liendo, do Peru, disse que os principais opositores à vida gay peruana são as instituições religiosas, “principalmente as católicas”. Liendo relatou que a mais forte em seu país “é a Opus Dei” – setor reacionário da Igreja Católica. E esclareceu que ela se coloca nas “estruturas de poder”, onde costuma “trabalhar em silêncio”. Em 90% dos países da América Central e Caribe, a homossexualidade é punida com cadeia ou morte.

O que se vê no olhar dos ativistas de determinadas regiões, relata quem cobre a Conferência, é o olhar de guerreiro e de certo deslumbramento por estar num país em que se luta por direitos como união civil e adoção de crianças, enquanto em suas terras, ainda se luta pelo direito à vida. Com o bem definiu Toni Reis, da ABGLT, são “bravos guerreiros”.

Dois pesos, duas medidas

Dois pesos e duas medidas. É com esse critério que o Estado atende a demanda dos cidadãos, principalmente, em se tratando de homossexuais. Não podem adotar. Não podem somar renda para aprovar financiamentos ou alugar imóveis… Não podem acompanhar o parceiro servidor público transferido. Não têm garantia de pensão alimentícia em caso de separação, assim como não podem fazer declaração conjunta do imposto de renda.

Ao todo, são 78 direitos civis negados aos gays, segundo o levantamento do advogado Carlos Alexandre Neves Lima. Se fossem levados em conta o Estatuto da Criança e do Adolescente, os códigos militares e outros códigos normativos, o número seria ainda maior.

Mesmo que tramite há quase um ano o projeto de lei 4914, que aplicaria à união estável de pessoas do mesmo sexo os dispositivos do Código Civil referentes à união estável entre homem e mulher, a grande expectativa é o julgamento no Supremo Tribunal Federal – previsto para os próximos meses – da Ação Direta de Inconstitucionalidade 4277, que prevê a união estável homoafetiva.

A desesperança no Congresso é justificável. Religiosos se esmeram em convencer os congressistas a fechar os olhos para os direitos dos homossexuais. E apesar de ter ficado menor na última eleição, a Frente Parlamentar Evangélica ainda faz muito barulho.

Uma das principais organizações religiosas a pressionar deputados e senadores, a Convenção Geral das Assembléias de Deus, publicou documento em que afirma não discriminar os homossexuais, no entanto, argumentam: “Acreditamos que a união homossexual vai contra os princípios bíblicos e contra a lei da natureza. Deus fez o homem para casar com a mulher”. Esclareça suas dúvidas no link Bíblia e Homossexualidade.

O Estado é laico – não religioso, que respeita a todas as manifestações de fé. Mas, na prática, ocorre o contrário, não o fosse, não haveria sentido o argumento da Convenção Geral da Assembléia de Deus de que “Deus fez o homem para casar com a mulher”.

Muito mais contundente, trabalha a Igreja Católica. Na última semana, a igreja distribuiu panfletos aos congressista em que acusa o presidente Lula de agir como Herodes – o que lava as mãos sobre a crucificação de Cristo. “Lula o enaltece (o homossexualismo [sic]) como direito humano, privilegiando-o com adoção! Que Brasil teremos no futuro? Cheio de abominações?”, indaga um dos trechos.

Na Cidade do México, onde foi aprovada uma lei que iguala os direitos dos homossexuais aos dos heterossexuais – incluindo a adoção –, a Igreja Católica pesou ainda mais nas tintas. Pasme! Disse que gays querem adotar “com o perverso propósito de usar as crianças para pornografia infantil, abuso sexual, prostituição e outras coisas”. No comunicado “Sobre a Fé”, da Arquidiocese do México, a igreja continua: “Por mais bem intencionados que sejam alguns ‘pais’ homossexuais, o seu estilo de vida afetará de muitas maneiras as crianças. Pois, as crianças costumam dizer: quando crescer quero ser igual ao meu pai. E, estas crianças com pais homossexuais, em que irão se espelhar? Quererão usar gliter? Se maquiar? Dormir com outros homens?”. Leia também Pais gays = filhos resolvidos, sobre os estudos da Universidade de Cambridge que tratam de filhos de pais homossexuais.

A deputada federal Cida Diogo (PT-RJ), integrante da Frente Parlamentar pelo Direito LGBT, considera uma “violência física e moral” a homofobia. “Esses direitos [união civil, adoção, por exemplo] não são mais do que aqueles que a população heterossexual tem”. É simples, o pensamento da deputada. A luta LGBT não é por algo a mais que os cidadãos heterossexuais. Quer-se apenas que fique de lado o critério de “dois pesos e duas meditas”.

Filhos de pais gays são bem resolvidos

Ser filho de pais gays não significa problemas com sexualidade, nem de relacionamentos com outras crianças. Ao contrário: normalmente as crianças e adolescentes costumam lidar numa boa com a homossexualidade de seus pais.

A afirmação é do psicólogo da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Michael Lamb, convocado para o julgamento da Proposta 8, na Califórnia. O processo trata da legalização do casamento gay, proibido após um plebiscito, que é questionado por dois casais homossexuais.

“Para um número significativo destes meninos, a adaptação será possível quando seus pais puderem se casar”, afirmou o especialista em psicologia do desenvolvimento. De acordo com a agência de notícias Associated Press, Lamb disse ainda que a teoria segundo a qual filhos de pais gays têm mais tendência a ser homossexuais é falsa.

A expectativa é que o caso chegue à Suprema Corte, garantindo o reconhecimento da união homoafetiva para todo os Estados Unidos. O processo, porém, corre ainda em primeira instância e deve terminar na próxima semana.

No Brasil

Enquanto não há uma lei que dê segurança jurídica, gays se veem obrigados a contar com a boa vontade alheia – leia aqui sobre o caso das escrituras públicas de convivência homoafetiva realizadas em São Paulo.

Em Goiânia (Goiás), por exemplo, nos últimos quatro anos, a Justiça reconheceu 170 relacionamentos gays – a maioria, homens, com vida econômica estável e com mais de 35 anos. É com base nos artigos 1.723 do Código Civil e 226 da Constituição Federal, que juízes aplicam à união homoafetiva as mesmas regras da união estável.

“Cidadania, fraternidade e afeto são as palavras de ordem no Direito de Família”, diz a juíza Maria Luiza Póvoa Cruz, da 2º Vara de Família e Sucessões ao site Central de Notícias Gays. “Embora ainda não haja legislação nem dispositivo constitucional que amparem a união homoafetiva, a jurisprudência e a doutrina vêm reconhecendo essa união como entidade familiar.”

Casamento um sonho de todos

Ao contrário do que se imagina, a idéia de casamento, família feliz e filhos, não se restringem a heterossexuais. Este também é o sonho de muitos homossexuais – e posto em prática, como fizeram Marcos Gladstone e Fábio Inácio recentemente.

Ou ao menos tenta-se fazer, já que não há uma legislação que dê de fato, como determina a Constituição Federal, direitos às minorias – no caso a comunidade LGBT.

Dados do 26º Tabelionato de Notas de São Paulo, na Praça João Mendes, centro da capital paulista, mostram que, em 2009, foram realizadas 202 escrituras públicas de convivência homoafetiva. No mesmo período, foram registradas 270 uniões entre heterossexuais.

A diferença entre 270 e 202 é de 68, ou seja, quase nenhuma! Se nos atentarmos ao número que existe de heterossexuais estes dados revelam que os homossexuais estão se unindo numa proporção bem maior.

O registro garante a proteção aos diretos do casal. O tabelião Paulo Roberto Gaiser acredita que a falta de uma legislação extensiva à união homoafetiva, apesar de deixar os homossexuais desamparados, dá aos gays a “liberdade plena para definir, por exemplo, o regime de bens e as relações de família”.

Segundo Gaiger, muitos casais também registram testamento para proteger seus interesses. Na escritura, os companheiros informam se são ou não dependentes econômicos entre si e definem o regime de bens que querem adotar. Depois, declaram se têm bens particulares e em comum.

“Alguns fazem declarações sobre tratamentos de saúde porque, muitas vezes, em caso de algum deles ter um problema de saúde, a situação familiar pode não ser pacífica. Então, um elege o outro como seu procurador em situações como essas”, explica o tabelião.

O processo é rápido. Leva apenas uma semana, mas nem todos os cartórios no país são obrigados a registrar a escritura. Especificamente em São Paulo, os cartórios são obrigados porque seguem uma determinação do corregedor.

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