Caio Castro e a experiência do armário

Por Marcelo Hailer, para A CAPA

A polêmica de Caio Castro envolve toda uma questão que vai muito além do estar dentro ou fora do armário. Diz respeito a maneira como os sujeitos gays se portam em público. Existem milhares de homossexuais que estão fora do armário para seus familiares, amigos e colegas de trabalho. Porém, não trocam carícias em público, reprovam os outros homossexuais que o fazem, aceitam a matemática de que o afeto gay deve ser realizado apenas entre quatro paredes alegando o fator de que não é “seguro” trocar carinho em locais públicos. Não seria isso uma outra maneira de estar dentro do armário?

 

Quando afetos gays são realizados em espaços públicos, que culturalmente e até mesmo institucionalmente, são espaços reservados/ legalizados para o afeto heterossexual, ou seja, quando dois corpos do mesmo gênero resolvem romper com o armário do espaço público e assumir o seu afeto, um choque se constrói em torno dos corpos classificados enquanto heterossexuais, é como se os dois corpos iguais a se abraçar e a se beijar representassem uma ameaça as normas do “bem viver” dos heterossexuais.

Conhecemos o sair do armário em escala coletiva quando se da a realização de Paradas Gays ao redor do Brasil. No momento em que acontece a Parada Gay, muitos dos homossexuais que vivem no armário, seja totalmente ou parcialmente, se juntam ao corpo da manifestação e se beijam e trocam carícias em plena Avenida. Porém, é fato de que muitos que lá estão, após o termino do evento, voltam para dentro dos armários em seus variados tipo de ser e existir.

Há muitos que no dia seguinte vão ao trabalho, local onde ninguém sabe de sua homossexualidade. Ainda vivemos com pessoas (empurradas pelo sistema normativo do qual todos fazem parte) que vivem totalmente dentro do armário. Pergunta-se: até que ponto a saída do armário é uma experiência libertadora? Será que nos dias de hoje é possível falar de uma vida 100% fora do armário?

A fala de Caio Castro (“prefiro ter a fama de pegador do que de veado”), evidencia o armário institucional imposto pela indústria da cultura construída dentro do regime liberal. Até por que os atores galãs, classe onde Castro está alojado, são desencorajados a sair do armário, pelo menos para a imprensa e para o seu público – e aqui temos dois tipos de saída de armário – pelos autores de novelas e também por seus empresários.

O motivo já é um velho conhecido: depois que o astro galã revelar o seu verdadeiro sentimento desejante (o homossexual), provavelmente só vai interpretar gays e nunca mais será alçado à categoria de galã. Segundo os mecenas de produtos televisivos e cinematográficos, o mito do galã, este que move centenas de fãs, estará morto e não mais produzirá dividendo dentro da audiência.

Isso é reproduzido por vários setores da imprensa, estar fora do armário enquanto homem heterossexual e “pegador” acabam por alimentar ainda mais o desejo sexual platônico em torno do ator e assim fazer com que ele adquira mais fãs e consiga mais trabalhos na televisão e também no cinema.

Um ator como Caio Castro até pode sair em defesa dos direitos gays (aqui uma outra saída de armário, em outros tempos, o simples fato de defender direitos civis gays seria interpretado como característica de uma possível homossexualidade), atitude que o ator fez logo em seguida à polêmica sucedida à sua declaração. Ao dizer que tem vários amigos gays e que não tem preconceito, mas nunca assumir a sua homossexualidade, a não ser quando este estiver com mais de 50 anos e não for mais headliner de produções culturais, caso muito comum na indústria cultural.

Toda a polêmica gerada em torno da declaração do ator revela que ainda vivemos sob uma forte política do espaço público como local de vivência privilegiada da identidade heterossexual. Ainda vivemos uma época em que a saída do armário não se dá uma única vez, mas que ela é composta por várias etapas de saídas do armário no meio social. Na mesma semana em que Caio Castro deu sua declaração que incomodou a comunidade gay, outra figura também foi vítima da política do armário. Neste caso foi a presidente Dilma Rousseff (PT), desafiada pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) a sair do armário e “assumir o seu amor pelos e com os homossexuais”.

A postura de Bolsonaro nos remete à cultura mais obscurantista em torno da saída do armário, que já foi citada neste texto, aquela em que pessoas não homossexuais resolvem sair do armário e defender os direitos civis dos gays. Não foram poucas as pessoas que, indiretamente concordaram com Bolsonaro, e disseram que a presidente Dilma deveria sair do armário. O fato da presidente não corresponder aos símbolos dominantes da feminilidade, ou da mulher de “verdade” (delicada, passiva e casada), faz com que as pessoas desconfiem de sua orientação sexual e a incitem a sair do armário. Como se vê, a questão de estar dentro ou fora do armário vai muito além da política do assumir, ela está ligada a uma postura política e composta de várias fases e saídas repletas de preconceitos e estruturas opressivas que fazem com que muita gente, galã ou não, permaneça dentro do armário, seja ele qual for.

A filósofa norte-americana Eve Kosofsky Sedgwick (1950-2009) se debruçou sobre o tema ao escrever o clássico texto “A Epistemologia do Armário, onde a estudiosa do gênero estabelece que a saída de armário também se dá com as identidades ciganas, judias, indígenas e outras. Porém, cada uma com a sua especificidade social.

Com esta afirmação entendemos que a questão de sair do armário e assumir publicamente uma identidade social não diz respeito única e exclusivamente à comunidade gay, ela perpassa vários setores da sociedade e é muito mais complexo do que supõe o senso comum.

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DIA DO MEDO MACHO

Dia do Medo Macho

Por Eliane Brum, para REVISTA ÉPOCA

Quando li nos jornais que a Câmara de Vereadores de São Paulo tinha aprovado um projeto de lei criando o “Dia do Orgulho Hétero”, minha primeira reação foi de indignação. Como cidadã que tem crises de bronquite por causa da poluição da cidade, em que ônibus, carros e caminhões circulam deixando nuvens de fumaça com monóxido de carbono, entre outras porcarias, sem que ninguém pareça fiscalizar. Como cidadã que tropeça nos buracos de calçadas quando anda a pé e já sofreu trancos na coluna quando anda de carro por causa da péssima pavimentação das ruas. Como cidadã que passa horas todo dia num trânsito empacado e é empurrada e machucada em trens e ônibus lotados porque o transporte público é insuficiente e ineficiente e a população que dele depende é tratada como gado. Como cidadã que testemunha a péssima qualidade da educação pública e do atendimento nos postos de saúde. Como cidadã que sofre nos períodos de seca com a qualidade do ar, mas teme a chuva porque ano após ano os mais pobres morrem soterrados ou têm suas casas destruídas por causa do descaso do poder público e de obras adiadas. Como cidadã que vive tudo isso na cidade mais rica de um país que é a sétima economia do mundo, ao ler a notícia minha primeira reação foi de indignação.

Afinal, será que os vereadores que deveriam honrar o voto da população não têm problemas reais para discutir no seu tempo muito bem pago com dinheiro público? Mais ainda ao saber que o autor do projeto, o vereador Carlos Apolinario (DEM) apresentou a proposta em 2005 e só conseguiu aprová-la, em primeira votação, no ano de 2007. Botou de novo a proposta em discussão em junho deste ano e, desde então, segundo a imprensa paulistana, estava emperrando a análise de outros projetos para, como chegou a ser dito, “vencer pelo cansaço”.

Quem é Carlos Apolinario, o homem que está tão preocupado com os gays? Como lembrou Fernando de Barros e Silva, colunista da “Folha de S.Paulo”, Apolinario é um adepto do troca-troca, pelo menos na política: “Já esteve no PMDB, passou por um tal de PGT, frequentou o PDT e hoje se abriga no DEM”. Mas, pelo empenho demonstrado, parece que aprovar o “Dia do Orgulho Hétero” era uma questão de convicção e de fidelidade para o vereador. E o projeto foi aprovado por 31 de 55 vereadores que só estão lá porque seus eleitores pensaram que fariam um bom trabalho.

Datas como o “Dia do Orgulho Gay” ou o “Dia da Mulher” ou o “Dia da Consciência Negra” fazem parte da luta pelos direitos básicos de parcelas da população que historicamente sofreram – e ainda sofrem – as consequências da discriminação e do preconceito por aquilo que são. Os gays, por exemplo, contra os quais o “Dia do Orgulho Hétero” se opõe, têm sofrido diariamente por séculos e continuam a ter ainda hoje sua vida ameaçada mesmo em cidades como São Paulo, em que os casos de homofobia aparecem com frequência alarmante nas manchetes da imprensa. Dezenas de pessoas são assassinadas por ano no Brasil por causa de sua orientação sexual. E, em julho, um homem teve parte de sua orelha decepada no interior de São Paulo ao abraçar seu filho porque foram “confundidos” com um casal homossexual – como se isso justificasse a violência.

A homofobia é um problema sério, que tem ameaçado a vida de cidadãos honestos, pagadores de seus impostos, que com seu trabalho ajudam a manter São Paulo e o Brasil funcionando. E a homofobia merece a preocupação dos vereadores de São Paulo. Em vez de se preocupar com isso, o que eles fazem? Aprovam uma lei que só vai acirrar a violência.

Em seu site oficial, Carlos Apolinario, que se autointitula “o vereador das mãos limpas”, discorre sobre “heterofobia” e “ditadura gay”. E assim justifica seu projeto: “Na verdade, meu projeto de lei que cria o Dia do Orgulho Hétero não significa um ataque à figura humana dos gays, que eu respeito. Meu objetivo é combater os excessos e privilégios praticados pelos gays”.

De fato, como todos sabemos, na vida real não há notícia de nenhum heterossexual sendo espancado por gays na Avenida Paulista ou discriminado na escola, no trabalho e em espaços públicos, como acontece com os homossexuais. Não há notícia de nenhum heterossexual ouvindo piadas nem risinhos por onde passa. Logo, o “Dia do Orgulho Hétero” pode ser interpretado como, no mínimo, uma provocação vulgar. Mas com consequências nefastas, na medida em que a homofobia tem causado a morte de seres humanos.

Como os heterossexuais nunca tiveram seus direitos nem sua vida ameaçados por causa de sua orientação sexual, não há justificativa para uma data como esta ser aprovada pela Câmara e fazer parte do calendário oficial de São Paulo. Como disse Pedro Estevam Serrano, professor de direito constitucional da PUC-SP: “Constitucional é (a lei). Mas, legítima no sentido humano, não é. Não é uma atitude de paz, é uma atitude beligerante”.

Por tudo isso, minha primeira reação foi de indignação. E, como cidadã, é indignada que devo me manter, já que a lei foi criada e aprovada por homens e mulheres públicos para ter repercussão e consequências públicas sobre a vida dos milhões de moradores de São Paulo. E com ecos no país e fora dele.

Mas, é sempre bom a gente dar a volta, e tentar compreender porque homens como Carlos Apolinario e os outros 30 que votaram a favor de seu projeto tiveram a atitude que tiveram. Sempre vale a pena vestir a pele do outro, ainda que em casos como este seja uma tarefa e tanto. A pergunta que me fiz foi a seguinte: “Por que homens e mulheres heterossexuais, que nunca tiveram sua orientação sexual questionada ou sofreram qualquer discriminação por causa dela, se sentem tão ameaçados pela homossexualidade do outro?”.

E segui com questões que me permitissem alcançar Carlos Apolinario e os outros 30: “Se eu me considero heterossexual e estou em paz com minha orientação sexual, por que vou me incomodar com a do outro? Por que preciso criar uma lei que se oponha ao modo de ser do outro, se ele e o mundo inteiro respeitam o meu modo de ser? Por que me sinto ameaçado por uma expressão da sexualidade que é pessoal apenas porque é diferente da minha?”. Por quê?

Em geral, a violência, seja ela física ou psíquica, é uma reação à percepção de ameaça. Você reage para se defender. Sente-se inseguro, arma-se (com pistolas, palavras ou leis) e reage com violência porque não consegue lidar de uma forma mais sofisticada com aquilo que interpreta como uma agressão. Se, na vida pública, não há nenhuma ameaça contra os heterossexuais sob nenhum ponto de vista, logo, não é aí que está o nó da questão. Portanto, é legítimo pensar que a ameaça possa ser uma percepção de foro íntimo para Carlos Apolinario e os outros 30. E, por dificuldades de lidar com essa questão no âmbito pessoal e privado, ela acabou se manifestando em fórum indevido, consumindo dinheiro público e acirrando problemas coletivos numa cidade que tem sido palco de crimes movidos pela homofobia.

Com isso não quero reforçar o clichê de que quem se sente incomodado com os gays pode estar com sua homossexualidade escondida no armário. Mas lembrar o que a necessidade de criar o “Dia do Orgulho Hétero” só desvela: a sexualidade é um território pantanoso e, para cada homem e mulher é pantanoso de uma maneira diversa. Não sei que tipo de perturbação moveu cada um dos vereadores que aprovaram a lei – e suas pulsões só acabaram por dizer respeito a mim e a todos os cidadãos de São Paulo porque eles fizeram dela algo público – fizeram dela uma lei.

Carlos Apolinario e os outros 30 não merecem o nosso escárnio, mas sim a nossa compaixão. Estes muitos homens e algumas mulheres precisam de ajuda, não de condenação. Preocupada com essa constatação, fui conferir seus rendimentos e verifiquei que um vereador de São Paulo recebe, por mês, R$ 15.033 de salário, além de R$ 16.359 de verba de gabinete para despesas variadas. Conclusão: dá bem para pagar uma terapia, dá não? Eles serão mais felizes e, mais bem resolvidos, poderão até se dedicar aos problemas reais de São Paulo. Nós todos, por razões humanitárias e de cidadania, agradecemos.

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“Levantamento do Ibope é positivo”, diz Tufvesson

“A informação é fundamental para dimunuir o preconceito”, opina Carlos Tufvesson – estilista e coordenador especial da Diversidade Sexual da prefeitura do Rio – sobre o levantamento do Ibope, segundo quem, 55% dos entrevistados rejeitam o direito à união estável entre pessoas do mesmo sexo e a adoção por casais homossexuais. “Só acredito em informação”, diz.

Carlos Tufvesson está à frente da Coordenadoria Especial da Diversidade Especial da prefeitura do Rio

A UM OUTRO OLHAR, Tufvesson se disse preocupado como determinadas informações são manipuladas. “Quem tem menos acesso a informação termina sendo preconceituoso”, já que, às vezes, a única fonte é “recheada de estereótipos”.

“Por exemplo, o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado na Argentina. Nem por isso, as Igrejas Católica ou a Evangélica de lá são obrigadas a casar. Isso é fato, porém, os líderes religiosos, que sabem disso, aqui dizem o contrário a seus seguidores”, disse por e-mail. “É uma pena a instrumetalização da informação que estamos vendo em vários níveis no nosso país”.

Tufvesson vê com bons olhos, no entanto, um número que não ganhou tanto destaque na divulgação do levantamento: os 45% que apoiam a união estável entre pessoas do mesmo sexo. “Estamos falando de direitos civis e humanos mas de uma minoria, por isso achei o resultado muito bom”, pondera.

Perguntado sobre a influência de católicos e evangélicos no Congresso, Tufvesson reponde que ninguém deve ser obrigado a abraçar as regras de uma religião que não decidiu professar. “Estado é laico e não pode o legislador legislar em função das regras de uma ou outra religião”, diz.

André Piva e Carlos Tufvesson, juntos há mais de 16 anos

“A campanha ‘Rio Sem Preconceito’, da prefeitura do Rio, mostra exatamente isto: que o preconceito contra a terceira idade é o mesmo preconceito do racismo, do sionismo”, escreve. Estamos falando de direitos humanos. Aliás, o resultado da pesquisa mostra que em nossa região é onde existe maior aceitação. Daí entendermos que estamos no caminho certo”.

“Cada religião tem suas regras e como tal devem ser respeitadas. Mas como adotar as regras de uma ou outra religião num pais com liberdade de culto? Para isso, existe o código civil. Seria o mesmo caso que proibíssemos o consumo de carne de porco no país, porque a religião judaica não permite. Eis porque o Estado tem de ser laico e suas políticas públicas idem”, conclui.

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Apesar de não estar bem certa sobre até que ponto a publicidade de manifestos radicais são capazes de provocar ações violentas, a maioria dos analistas acredita que silenciá-los não é o melhor caminho. É “o velho dilema de dar voz ou não aos terroristas”, escreve o espanhol “El País” sobre os atentados a Utoeya e Oslo, na Noruega.

Anders Breivik, autor da ação, admitiu que o massacre a 76 vidas era uma “operação de marketing” do manifesto de 1.500 páginas – na verdade um apanhado de ideias já publicas em blogs da Europa.

Para esses analistas, é melhor saber o que pensam os radicais para debatê-los e refutá-los do que viver na ignorância. Mas o debate promete ser longo.

O autor do massacra de autodefiniu um fundamentalista cristão de direita

O jurista Carlos Jiménez Villarejo, por exemplo, alerta para o que considera ser a consequência da difusão de ideias antidemocráticas: a multiplicação de adeptos. No sentido contrário, Alessandro Pizarroso, professor de História da Propaganda da Universidade Complutense, pensa que a “informação deve ser dada sempre. Mas ressalta: “outra coisa [bem diferente] é publicar um manual de fabricação de bombas”.

“Isso não significa que Breivik deva ter direito de continuar pregando suas ideias de ódio”, ressalta a “O Globo” (para assinantes) Hajo Funke, da Universidade Livre de Berlim e um dos “maiores especialistas em extremismo da Alemanha”. “Ele precisa continuar isolado”.

Para Funke, “precisamos entender melhor os motivos que o levaram ao massacre, o ódio contra a sociedade multicultural e contra a esquerda”. Assim, diz ele, é possível conhecer as motivações de outros grupos extremistas e de fanáticos. Anders Breivik se autodenominou fundamentalista cristão, ultranacionalistas e islamofóbico.

Em entrevista à correspondente brasileira Graça Magalhães-Ruether, Hajo Funke disse que os partidos de extrema-direita não podem reclamar da acusação de que têm responsabilidade ideológica pelo massacre, já que pregam contra imigrantes e muçulmanos.

“As minorias são degradadas por eles, transformadas em um estereótipo, assim como os nazistas fizeram com os judeus”, disse. “Para mim, isso é um perigo”.

Num artigo para a revista Carta Capital, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) considera ser um “descaso” pensar o massacre “apenas como um problema norueguês”.

Polícia trabalha sobre os corpos na ilha Utoeya - maioria jovens do Partido Trabalhista

Wyllys escreve que a Noruega “está entre as sociedades menos religiosas do mundo e, em contrapartida, também entre as mais saudáveis, segundo os indicadores da ONU para expectativa de vida, alfabetização, renda per capta, nível educacional, igualdade entre os sexos, taxa de homicídios e mortalidade infantil”. Apesar disso, alerta, o radicalismo levou a este massacre.

“O que esperar do nosso país, o Brasil”, onde, segundo ele, “as crenças dos cristãos conservadores exercem uma enorme influência sobre o discurso público – em escolas, juizados e principalmente no Legislativo – ao ponto de intervirem em políticas de governos e silenciar, sob ameaça de danos eleitorais, políticos de boa fé”.

“O massacre na Noruega tem mais a ver conosco do que possamos pensar”, alerta o deputado que já foi vítima de ameaça de morte por “pessoas que se dizem ‘transformadas em Cristo'”.

Mas o que fazer diante da intolerância, do discurso radical, que beiram à violência – como a ocorrida na Noruega, além das várias diárias aqui no Brasil mas que não ganham às páginas de jornais.

“Nosso apego à liberdade e à democracia e nosso entendimento sobre o que significam liberdade e democracia são duramente postos à prova quando nos deparamos com a intolerância”, escreveu o jornalista Ricardo Noblat recentemente a “O Globo”.

No que – escrito hoje poderia atribuir-lhe ao governo norueguês – Noblat escreve: “nossa capacidade de tolerar os intolerantes é que dá a medida do nosso comprometimento para valer com a liberdade e a democracia”.

O debate está posto.

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Depois de ter até skinhead saindo do armário, só mesmo tendo um dia para manifestar o orgulho de ser diferente – hétero.

É o que defende este sujeito: o direito a ter o orgulho hétero. Para ele, ser heterossexual “hoje” se tornou “uma aberração”. Diz ainda que quer um dia ter filho e família e poder ensinar para o garoto o que aprendeu do pai: que homem gosta é de mulher.

O moço reclama que “hoje” o que se aprende na Internet e na TV é que ser homem e gostar de mulher é errado. “Hoje em dia cada vez menos temos opção, apesar de falarem em diversidade. E a única possibilidade vendida pela mídia é ser homossexual”, desabafa.

Para rapaz, um “grupinho de viados” está controlando a mídia, que fica dizendo o que pode e o que não pode fazer. “Cadê a liberdade de expressão”, questiona. “A liberdade de expressão só vale para eles? Se eu defendo o direito dos héteros sou fascista?”.

“Verdadeiros líderes” para ele, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) e a deputada estadual no Rio Mirian Rios (PDT) foram os dos poucos a ter coragem de confrontar a “mídia”.

“Você não deve ter vergonha em assumir e ter orgulho de ser hétero”, conclui.

Repare aos detalhes do vídeo.

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Também o jornalista Clóvis Rossi, da “Folha de S.Paulo” (para assinantes) vê no radicalismo responsabilidade sobre os atentados na Noruega.

Para entender os atentados na Noruega, o melhor a fazer é ouvir um taxista local, Arild Tangen, entrevistado por Juan Gómez, enviado especial de “El País”: Tangen acha Breivik um “bastardo” por ter matado “jovens brancos e norugueses”. Completou com a seguinte observação: “Se odiava tanto os muçulmanos, que matasse jovens muçulmanos ou negros”.
Traduzindo: parece tolerável matar, desde que sejam muçulmanos ou negros. É preciso acrescentar que Tangen é eleitor do Partido do Progresso, a extrema direita norueguesa da qual o assassino foi militante e que arrancou 614 mil votos (23% do total) nas eleições de 2009?
É claro que nem todos os eleitores da extrema direita são loucos assassinos, mas é igualmente evidente que a pregação islamofóbica do Partido do Progresso é a voz que arma a fúria, para usar título da edição espanhola do livro (“La Voz y la Furia”) que reúne artigos de Stieg Larsson, o mais célebre dos autores nórdicos de novelas policiais.
Nele, rememora Joaquín Prieto, em “El País”, Larsson dizia que também em Estocolmo podiam produzir-se atentados terroristas. Errou apenas de cidade, mas não na voz que armava a fúria: o jornalista sueco, morto em 2004, baseava sua previsão na disseminação da influência de grupos racistas norte-americanos, como os responsáveis pelos atentados de Oklahoma em 1995, que deixaram 168 mortos e também visaram prédios do governo.
Larsson foi premonitório: Breivik “foi profundamente influenciado por um pequeno grupo de blogueiros e escritores americanos que vêm advertindo há anos a respeito da ameaça do islã, recheando seu manifesto de citações deles”, informa o “New York Times”.
Resume Aslak Sira Myhre, diretor da Casa da Literatura de Oslo e ex-líder da Aliança Eleitoral Vermelha, em artigo para o “Guardian”: “Eu também acredito que o autor era louco. (…) Mas, tanto quanto [nos atentados] de 11 de setembro como nos ataques ao metrô de Londres, essa loucura tem uma causa clínica, mas também política”.
Completa, em entrevista para o “Figaro”, o especialista em Islã Mathieu Guidère, autor de um livro chamado exatamente de “Os Novos Terrorismos”: “Breivik representa um novo avatar do terrorismo global, o do fundamentalismo cristão nascido em reação aos ataques de 11 de setembro de 2001. Ao antigovernismo se somam duas outras temáticas básicas: a islamofobia e o ódio ao multiculturalismo, percebido como arma dos islamistas para invadir a Europa”.
A menção ao multiculturalismo ajuda a responder ao taxista que se indignou porque Breivik matou brancos norugueses, e não negros ou muçulmanos: Stieg Larsson, em seus premonitórios artigos, já dizia que a elite política (sueca e nórdica em geral) é tão odiada quanto os muçulmanos ou mais que eles, por promover o multiculturalismo – que, na voz dos que armam a fúria, provocaria a islamização da Europa.
Por essa lógica, entende-se que Breivik tenha atacado o quarteirão do governo em Oslo e um acampamento da Juventude Trabalhista, partido no poder desde 2005. O pior é que a voz que arma a fúria só cresce na Europa.

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Hoje, na  “Folha de S.Paulo” (para assinantes), o filósofo Vladimir Safatle escreve:

Há 60 anos, os filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer forneceram uma das mais instigantes leituras do nazismo, do fascismo e de sua lógica de segregação. Consistia em mostrar como estávamos, na verdade, diante de um tipo de patologia social.

Isso não significava dizer que os fascistas seriam “monstros patológicos”, “perversos” e coisas do gênero. É alentador acreditar que apenas monstros são capazes de produzir monstruosidades.

Tratava-se, na verdade, de mostrar como o fascismo conseguira se colocar como um modelo de forma de vida. No caso, uma forma de vida constituída através da transformação de comportamentos patológicos em norma social, de temáticas que normalmente aparecem em delírios paranoicos no conteúdo de discursos políticos tacitamente aceitos.

(…)Por sua vez, delírios de grandeza animavam discursos que pregavam a amplidão redentora da nação.(…)

Lembrar isso, após o massacre em que um norueguês islamófobo, cristão conservador e simpatizante de partidos de extrema-direita matou dezenas de jovens do Partido Trabalhista, é só uma forma de insistir como alguns não aprendem nada com a história.

Tal como o direitista americano que, meses atrás, atirou contra uma deputada democrata em Tucson contrária a leis mais duras contra a imigração, o que temos aqui é simplesmente alguém que quer realizar tal forma de vida fascista com as próprias mãos.

(…) porque não estamos no domínio do argumento, mas no dos afetos patológicos cada vez mais naturalizados como discurso no jogo político.

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